06 maio 2013

Estágio Leonardo da Vinci em França

Objectif Sciences International: um estágio Leonardo em França
Viver algum tempo "no estrangeiro" é uma experiência muito interessante, porque nos permite confrontar os nossos hábitos de vida e métodos de trabalho com modos diferentes de ver e viver as coisas. E sobretudo, fugir dos vícios da "Portugalidade" e aprender a relativizar o nosso sistema de valores.
Fazer um estágio em França não é a mesma coisa que fazer um estágio no Congo ou em Xangai. É claro que há muita familiaridade entre Portugueses e Franceses - à conta da emigração, da influência francesa na cultura portuguesa desde o Século XIX, etc. E porque, apesar de tudo, estamos todos no mesmo continente, que não é tão grande como isso.
Senti-me em casa em França. Acho que há mais coisas em comum entre Portugueses e Franceses do que entre Portugueses e Espanhóis, por exemplo. O clima é moderado, as pessoas são reservadas e educadas e a vida parece tranquila - sobretudo no campo, onde se situa o escritório da organização de acolhimento.

Tem Cuidado Com o Que Desejas
Antes de fazer um estágio na OSI e consultando o site da organização, fiquei com a impressão de que esta ONG fazia coisas muito interessantes e que me interessavam muitíssimo - sobretudo ligadas à divulgação e popularização de ciência para populações juvenis. Excelente - é mesmo isto que queria!
Mas o trabalho que se faz no estágio, dependendo da vocação e capacidades de cada um, é sobretudo administrativo: traduções, edição de sites, contactos telefónicos, pequenas tarefas repetitivas, para as quais os funcionários principais da OSI não têm tempo e que ficam reservadas para os estagiários. Mas estejam descansados, ninguém aqui usa estagiários para tirar cafés ou fazer fotocópias; a primeira ferramenta de trabalho que vos exigem é o vosso cérebro.
Há muito trabalho para fazer e as ideias circulam; se a vossa ideia é fazer turismo e passar um bom bocado...pensem duas vezes.
É claro que há tempo para fazer turismo. Ir passear um bocadito, conhecer os sítios, provar queijos e vinhos e isso tudo. Mas três meses passam a correr e se não aproveitam o tempo para fazerem contactos, trocarem ideias, desenharem projectos para o futuro, conhecerem e aprenderem mais e mais...será um desperdício.
Ao contrário do que acontece em Portugal, os horários laborais são respeitados. Se entram às 9, saem às 5. E se ficarem mais meia-hora a despropósito, as pessoas olhar-vos-ão com estranheza e perguntar-vos-ão se está tudo bem. Os horários são para cumprir: nem pensar em chegar atrasado para o que quer que seja - mas ninguém nos obriga a fazer horas extraordinárias só porque sim - desde que o vosso trabalho seja bem feito e dentro do prazo, claro. Enfim: gente civilizada e que trabalha como deve ser.

Carreira? Qual Carreira?
Os estágios desta natureza servem sobretudo para trazer mão-de-obra rotativa para estas ONG's, com o apoio da União Europeia. São organizações pequenas, com poucos recursos e se esperam arranjar um emprego aqui a seguir ao estágio...têm de ser muito, muito, muito, muito competentes e interessantes, ao ponto da organização vos propor que continuem por aqui. Não há dinheiro para salários continuados, para lá da equipa nuclear. Desolé.
Há todavia a oportunidade de se inscreverem nas formações de Educadores Científicos da organização e que podem resultar num trabalho sazonal como educador(a) nos muitos campos de férias científicas que a organização promove na primavera e no verão. E quanto à língua, não há problema; o Francês e o Inglês são um requisito fundamental, claro, mas há campos de férias para jovens de países lusófonos, anglo-americanos, hispano-falantes, francófonos e até japoneses e chineses. Mas os campos de férias científicas, apesar de não serem mal remunerados para os padrões portugueses, são temporários. No fundo, são pequenos trabalhos de Verão, muito intensos. Apesar de se trabalhar durante 15 dias com miúdos de várias idades, há que preparar as formações muito tempo antes, seguindo um calendário e orientações pedagógicas muito rigorosas e a seguir aos campos, há que fazer a avaliação, balanço e relatórios, para corrigir problemas, evoluir no trabalho e aperfeiçoar os resultados. É trabalho muito interessante, mas muito exigente - e não é qualquer um que está preparado para ensinar, com sensibilidade e bom-senso. Se gostam de desafios que dão insónias, este é o sítio certo.

No País das Baguetes: Cuidado Com os Esteriótipos
Viver em França não é difícil. Ao contrário da imagem popular dos Franceses, as pessoas são simpáticas. Muito simpáticas. Às vezes, demasiado simpáticas. Toda a gente nos diz "BONJOUR!" com um tom alegre e cantado - e quando te despedes na mercearia depois de encheres os sacos de baguetes e vinho das Sauternes de Landes, toda a gente te canta "BONNE SOIRÉE!", com um sorriso. É no mínimo, perturbante. Como se estivesses num filme musical da Disney.

Algo como isto.

E toda a gente fará questão de te dizer, sobre a imagem externa dos Franceses como pessoas antipáticas e mal-educadas, que esses são os Parisienses. E os Parisienses, como todos repetem, são "umas bestas".
Algumas recomendações práticas: metam as baguetes no congelador e descongelem o pão para o dia seguinte. Não sei que diabo é que eles metem na massa do pão daqui, mas no dia seguinte, a baguete está dura como rocha e perfeita para pregar pregos, fazer pequenas obras em casa ou fazer parte do equipamento padrão da polícia anti-motim (que aqui se chama CRS).
Outra recomendação: tragam café Delta de casa se tiverem espaço na bagagem. Deixem-me repetir: tragam café português, tragam café português, tragam café português.
Os Franceses gostam de repetir à exaustão que a civilização ocidental foi salva pelo Carlos Martel na batalha de Poitiers no ano 732 DC. É mentira. A civilização ocidental foi salva no dia em que os Italianos e Portugueses tiraram a primeira "bica" como deve ser. O café em França é caro, mal tirado e sabe a água de lavagem de carros. Se gostam de café, é trazê-lo da Península, porque aqui, é a barbárie. De resto, eles safam-se moderadamente no queijo e no vinho. E têm cozinha francesa, que não é má de todo, mas melhora conforme vamos avançando para o Sul. No Norte da França, a cozinha resume-se praticamente a blocos de manteiga, com uns pozinhos de outros ingredientes para disfarçar. Sobretudo batatas. A batata é omnipresente; este país é obcecado por batatas e se o Euro rebentar, não tenho muitas dúvidas que a batata será a primeira escolha para ser usada como moeda...

Simpáticos, Mas Careiros
O custo de vida em França é praticamente igual ao de Portugal. As casas de aluguer em espaços urbanos andam pelos mesmos preços, as portagens, bilhetes de comboio e autocarro, supermercados, água, telefone, electricidade ou Internet, idem aspas. A única coisa que é de facto mais cara é a restauração: jantar ou almoçar fora aqui pode ser duas a três vezes mais caro do que em Portugal, dependendo dos sítios. De resto, os preços são idênticos, com uma diferença importante: ninguém aqui ganha abaixo do salário mínimo Francês, que é mais ou menos 1200 euros. Deixem-me escrever por extenso: mil e duzentos Euros. Por isso, se nas vossas voltinhas no LIDL virem pessoas muito mal vestidas a comprarem Foie-Gras e Trufas de Perigord, com umas quantas garrafas de Champagne Moet & Chandon para empurrar, não se admirem, porque é mesmo assim: os Portugueses são pobres, porque não protestam, nem batem o pé como os Franceses. Mas esperem pela pancada; por cá já se começam a fazer sentir os efeitos da desindustrialização, da queda do consumo e a precarização do trabalho e compressão dos salários avança com pezinhos de lã. Apesar de estar mais protegida do que os países do Sul Europeu, a França vai sentir a crise bancária mais tarde ou mais cedo.

Das Coisas Boas: Picar o Cérebro
O local de trabalho reflecte a ética da ONG. O escritório é minúsculo, está em obras, mas é todo feito sob princípios de arquitectura sustentável - está construído com materiais biodegradáveis ou recicláveis, com bom isolamento e eficiência térmica e energética. Madeira, palha (sim, palha, é um bom isolante), lã-de-rocha e painéis de aglomerado de madeira tornam o local muito agradável, faça calor ou frio. Todo o terreno que rodeia o escritório tem vinhas e campos de cultivo onde se pratica permacultura e estão ausentes pesticidas ou herbicidas sintéticos. Portanto, a organização não prega ecologia, sustentabilidade ou conhecimento científico em vão: pratica-os todos os dias.
A única coisa que me faz comichão é que todos os computadores do local correm sobre Windows, o que como utilizador de GNU/Linux e defensor de uma cultura e economia "Open Source", me faz alguma confusão - sobretudo porque eticamente  é o que faria mais sentido numa organização desta natureza. Mas como consigo fazer correr sistemas GNU/Linux a partir de uma pen usb, posso trabalhar no meu próprio sistema em qualquer máquina, portanto, sinto-me muito à vontade.
Há que praticar o Francês, que é a língua dos nativos e a língua de comunicação entre as pessoas dos estágios e do escritório. Se não estiverem muito à vontade, não faz mal, toda a gente fala Inglês e de vez em quando os diálogos adaptam-se, para que toda a gente se entenda, mas recomendo que pratiquem o Francês tanto quanto possível, porque é uma boa oportunidade para praticarem a língua em imersão total.
Todos os sites da organização (e são muitos e multilingues) são feitos com a plataforma CMS "SPIP", que é muito conhecida e utilizada em França e países Francófonos, mas muito pouco conhecida fora desse universo. De facto, não a conhecia de todo, mas após a primeira semana revela-se muito fácil de compreender e utilizar, sem grandes problemas.
De resto, para quem gosta de ciência e divulgação científica, dependendo das pessoas com quem falamos (sobretudo nas formações da OSI, onde se reúnem pessoas de vários países, com formações completamente diferentes), podem estabelecer-se diálogos, trocas de contactos e conversas muito interessantes sobre muitos temas. Mas para isso tem de haver de facto interesse e uma postura pro-activa. Se vierem para fazer turismo, também podem, mas...meh. Não é a coisa mais interessante que podem fazer com este estágio. Se tiverem ganas de saberem coisas novas, de estimularem o cérebro, de aprenderem como viver de modo diferente, de saberem mais e mais...esta pode ser uma boa oportunidade, se souberem estar atentos.

Miguel Gomes da Costa

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